Quando o motorista encosta no posto para abastecer, o preço que ele vê na bomba parece o resultado de uma decisão simples. É comum pensarmos que basta a Petrobras anunciar um valor e ele se reflete automaticamente em todo o país. A realidade, no entanto, é um complexo quebra-cabeças financeiro, logístico e geopolítico que as distribuidoras de combustíveis precisam montar todos os dias.
Para entender por que o preço do combustível sobe ou desce — e por que às vezes há risco de desabastecimento —, precisamos olhar para os bastidores do mercado: os contratos, os leilões, a janela de importação e o cálculo do custo médio.
1. A Base do Abastecimento: Contratos vs. Mercado Spot
A jornada do diesel começa nas refinarias (a grande maioria operada pela Petrobras). O combustível produzido lá não é vendido diretamente aos postos, mas sim às distribuidoras.
A relação entre a Petrobras e essas distribuidoras se dá de duas formas principais:
- Contratos Regulares (A Regra): Mais de 90% do combustível é negociado via contratos de longo prazo. Nesses acordos, as distribuidoras têm direito a “cotas” mensais de volume, pagando o preço oficial de tabela estabelecido pela estatal.
- Leilões Eletrônicos (A Exceção/Mercado Spot): Quando há picos de demanda (como o escoamento da safra agrícola) ou a distribuidora precisa de mais diesel do que sua cota permite, a Petrobras realiza leilões em sua plataforma digital (o Petronect).
Como funciona: A Petrobras oferta lotes limitados em polos específicos, e determina a data de entrega.
A disputa: As distribuidoras dão lances oferecendo um ágio (um valor a mais por litro) sobre o preço de tabela. Quem paga mais caro, leva o volume extra.
2. O Cenário Global e a Janela de Importação Fechada
O Brasil não produz todo o diesel que consome; historicamente, dependemos de importar entre 20% e 30% desse volume. É aqui que o cenário geopolítico global entra na conta.
Em momentos de tensões internacionais — como os atuais conflitos no Oriente Médio que afetam rotas vitais de petróleo, encarecendo o barril —, o custo do diesel no exterior dispara. Ao mesmo tempo, a Petrobras tenta proteger o mercado interno segurando os preços nas refinarias, criando uma defasagem (o diesel brasileiro fica muito mais barato que o internacional).
Isso gera um fenômeno conhecido como o fechamento da janela de importação:
- Comprar diesel fora do país custa muito caro e é cobrado em dólar.
- Se a distribuidora importar esse diesel caro e tentar vendê-lo no Brasil para competir com o diesel mais barato da Petrobras, ela terá um prejuízo milionário.
- Como resultado, as importações privadas paralisam. A pressão recai inteira sobre a Petrobras (que não consegue suprir o país sozinha) e sobre o Governo, que frequentemente precisa adotar medidas emergenciais (como zerar impostos federais ou conceder subsídios) para incentivar a chegada de combustível externo e evitar o colapso logístico.
3. A Matemática dos Tanques: O Custo Médio Ponderado
Como as distribuidoras lidam com essas diferentes fontes de combustível? A resposta está na contabilidade. O Diesel A (o combustível fóssil puro) é um produto fungível.
Quando ele chega às bases das distribuidoras, é descarregado nos mesmos grandes tanques, misturando-se fisicamente.
Para precificar o combustível que será enviado aos postos, a distribuidora calcula o Custo Médio Ponderado de todo o seu estoque.
Esse custo é a mistura de quatro ingredientes principais:
Diesel A Cota Normal (Maior volume, menor custo): Comprado da Petrobras no preço oficial.
Diese A de Leilão (Volume extra, custo mais alto): Comprado da Petrobras com o acréscimo do ágio disputado no mercado spot.
Diesel Importado (Volume variável, custo volátil): Sujeito à cotação do barril lá fora, câmbio do dólar, frete marítimo e seguros.
O Efeito Prático: Se a Petrobras reduz o tamanho das cotas regulares (baratas), a distribuidora é obrigada a comprar mais nos leilões (caros) ou importar (muito caro), mas importar é algo que não está sendo feito.
Automaticamente, o custo médio daquele tanque sobe de forma PONDERADA, mas os aumentos que têm sido repassado ao posto e ao consumidor final, mesmo que a Petrobras não tenha anunciado nenhum reajuste até 14/03, foram aumentos especulativos das distribuidoras que representam mais de R$ 1,00/L de reajustes, como se agora dentro do tanque das distribuidoras só existisse Diesel S10 A de Leilão ou Importado.
Vamos fazer um exercício histórico prático então, usando a base de Paulínia/SP como referência:
Vamos assumir que:
Diesel S10 A Importado representa 30% do produto nacional comercializado, logo os outros 70% são de fonte nacional;
Diesel S10 A Cota Normal representa 90% dos contratos das distribuidoras com a Petrobras;
Diesel S10 A Cota Leilão representa 10% dos contratos das distribuidoras com a Petrobras;
Então teremos a seguinte métrica composição de estoque de Diesel A:
Diesel S10 A Nacional 70% = (Preço Lista * 90% + Preço Leilão * 10%) * 70%
Diesel S10 A Importado 30% = (Preço PPI ANP) * 30%
PIS/COFINS = 0,3515/L
Mistura Obrigatória = 85%
Dia 02/03: Utilizando valores reais, no (ínicio da guerra) tínhamos o seguinte Custo Ponderado de Estoque de Diesel S10 A, considerando que não havia leilão e que as distribuidoras estavam importando normalmente:
Diesel S10 A Nacional 70% = (R$ 3,3026 ) * 70%
Diesel S10 A Importado 30% = (R$ 3,5314) * 30%
PIS/COFINS = R$ 0,3515/L
Custo Ponderado em 02/03 (85%) = (2,3118 + 1,0594 + 0,3515)*85% = 3,1642/L
Dia 09/03: Durante a semana de 02/03 a 06/03 tivemos o pico do salto do petróleo, atingindo defasagens de R$ 2,00/L no Diesel o que paralisou as importações pelas distribuidoras, mas estes agentes repassaram aumento no mercado justificando serem custos com o Diesel Importado:
Diesel S10 A Nacional 70% = (R$ 3,3026 ) * 70%
Diesel S10 A Importado 30% = (R$ 4,7014) * 30%
PIS/COFINS = R$ 0,3515/L
Custo Ponderado em 09/03 (85%) = 2,3118 + 1,4104 + 0,3515)*85% = R$ 3,4626/L
Aumento Ponderado de Diesel A S10 Estoque de (R$ 0,2984/L)
Por mais que o custo do Diesel importado tenha aumentado R$ 1,17/litro, o impacto no estoque da distribuidora foi de apenas R$ 0,29/L
Dia 16/03: Na semana de 09/03 a 14/03, muitas restrições de volume aconteceram, isenção do PIS COFINS, aumento da Petrobrás e o novo subterfúgio utilizado pelas distribuidoras foi o “Leilão da Petrobras” com ágio de R$ 2,39/L em Paulínia/SP segundo comentários sem confirmação, e inclusive houve um pedido das distribuidoras diretamente ao MME, de que a Petrobras deveria aumentar as importações de diesel para suprir à elas por não estarem dispostas a importar leia.
E então o que aconteceu com o custo ponderado de estoque do Diesel A S10:
Diesel S10 A Nacional 70% = (R$ 3,6826 [Lista] * 90% + R$ 5,6926 [Leilão] * 10% ) * 70%
Diesel S10 A Importado 30% = (R$ 5,3769) * 30%
PIS/COFINS = R$ 0,00 (isento)
- Custo Ponderado em 16/03 (85%) = (2,7185 + 1,6130) * 85% = R$ 3,6817/L
- Aumento Ponderado de Diesel A S10 Estoque de (R$ 0,2191/L)
Enquanto as distribuidoras não estão importando diesel por ser inviável, mesmo com o tal “Leilão Petrobras” que não é público, mas que “cobrou” um ágio de R$ 2,39/L em Paulínia/SP, mesmo com o reajuste da Petrobras de R$ 0,38/L, e a isenção do PIS/COFINS, o custo ponderado de estoque da distribuidora sofreu aumento de R$ 0,52/L desde o início da Guerra.
Mas então, porque o preço de compra dos postos de combustíveis junto às distribuidoras sofreu aumento de até R$ 1,00/litro ao longo destas últimas duas semanas, na base de Paulínia/SP? A culpa não é do posto de gasolina.
O que isso evidência?
4. Conclusão
Este tipo de controle de custos ponderados só é possível de obter através de ferramentas de tecnologia e inteligência em precificação de combustíveis, como a VPricing Combustíveis oferece através da parametrização dos preços e custos.
Por: Bruno Valêncio • Founder