Em um artigo publicado no final do ano passado pelo Portal UOL, foi abordada a questão da redução de 27,4% no custo do diesel promovida pela Petrobras desde janeiro de 2023, e a constatação de que essa queda não se refletiu integralmente para o consumidor final, atingindo apenas 6,9%, segundo dados do MME (Ministério de Minas e Energia).
A discrepância entre o desconto concedido pela Petrobras e o valor observado nas bombas é atribuída a diversos fatores:
> A Estrutura de Composição do Preço
Mistura Obrigatória: O diesel comercializado nos postos incorpora uma proporção de biodiesel, cujo preço é determinado por meio de negociações entre usinas e distribuidoras.
Carga Tributária: Impostos federais (PIS/COFINS) e estaduais (ICMS) incidem sobre o valor.
Margens de Lucro: Distribuidoras e revendedores de combustíveis gozam de liberdade de precificação, podendo utilizar a redução para recompor suas próprias margens de lucro, em vez de repassar integralmente a queda.
Dentre esses componentes, observamos alguns fatores que mitigaram a queda, tais como a reintrodução da cobrança do PIS/COFINS, que estava zerada, o aumento do ICMS por dois anos consecutivos, após a implementação da monofasia, e a elevação acentuada do preço do biodiesel no início de 2025, o que levou o próprio governo a adiar o aumento da mistura obrigatória de março para agosto de 2025.
Portanto, o “fator Petrobras” não é o único responsável pela composição do preço, representando apenas uma parcela do custo.
Dentro deste panorama, onde discorremos sobre os três principais itens de composição de custo, existem outros elementos que, frequentemente, passam despercebidos, como o custo logístico e o custo financeiro.
Em um país de dimensões continentais, o custo do frete possui um peso muito relevante em diversas regiões, contribuindo para a elevação do custo. O fator financeiro também é significativo; com a taxa de juros do país em 15% a.a., o capital se torna mais oneroso, e, consequentemente, elevam-se tanto o custo de utilização de cartões pelos postos quanto o custo de captação de recursos junto às instituições financeiras. Isso corrobora para que parte dessa redução não chegue efetivamente ao consumidor nas bombas.
O mercado de combustíveis é intrinsecamente complexo, permeado por diversos fatores que influenciam direta e indiretamente o custo de aquisição e, por conseguinte, o preço final praticado nas bombas.
Sendo assim, quais medidas podem ser adotadas para mitigar a percepção de que a redução de preços nunca beneficia o grande público?
O primeiro aspecto reside na comunicação. A maioria da população presume que o combustível comercializado é determinado por um único fator, a Petrobras, devido ao uso histórico da empresa como ferramenta política para manipulação de mercado. Além disso, parte da grande mídia frequentemente divulga apenas o que gera manchete, como “Petrobras reduz o preço nas refinarias”. A população, então, entende que uma queda de R$ 0,10/L na refinaria deve se refletir integralmente nas bombas, o que não corresponde à realidade.
Os postos e suas entidades representativas necessitam aprimorar a comunicação com seus clientes, visto que os postos de gasolina são a vitrine do mercado.
O segundo ponto, talvez o mais desafiador, envolve uma profunda mudança cultural ainda incipiente no segmento de revenda: a profissionalização na gestão de compras e a transparência nos contratos de fornecimento entre postos e distribuidoras. Este é um tema que abordamos há tempo e já é prática comum entre grandes consumidores: a parametrização dos custos. Isso significa que cada item que compõe o custo de comercialização possui um indexador e uma periodicidade de reajuste, e tal medida proporciona transparência e previsibilidade à relação.
Essa abordagem contribuiria para evitar o grave problema da assimetria nos repasses e facilitaria a comunicação entre postos, consumidores e órgãos fiscalizadores.
Reconhecemos que esta não é uma mudança que ocorrerá de forma imediata e que existe uma forte resistência, especialmente por parte das distribuidoras, pois isso diminui o poder delas de repassar o notório “ganho de margem” em momentos de movimentação do mercado.
Por: Bruno Valêncio • Founder